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O peso de ter um carro: quando o Estado vira inimigo do motorista

Redação Recifes
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O peso de ter um carro: quando o Estado vira inimigo do motorista

Ter um carro nunca foi barato, mas há uma diferença importante entre o custo natural de possuir um veículo e o custo artificialmente inflado por políticas públicas que parecem encarar o motorista como um alvo fiscal fácil. Em vários países do mundo — e o Brasil está longe de ser exceção — uma combinação de tributos exorbitantes, taxas municipais, pedágios, seguros obrigatórios e multas transforma o simples ato de dirigir em um esforço financeiro hercúleo para quem depende do carro para trabalhar, levar os filhos à escola ou simplesmente sobreviver fora das grandes capitais.

O argumento ambiental costuma ser o escudo preferido dos governos para justificar o aperto sobre os proprietários de veículos. Emissões de CO₂, congestionamentos urbanos, qualidade do ar — tudo isso é real e merece atenção. Mas há uma contradição gritante: enquanto se encarece o uso do carro a combustão, a infraestrutura para a mobilidade elétrica avança em passo de tartaruga, o transporte público permanece caótico e insuficiente em boa parte do território, e quem mora no interior ou na periferia simplesmente não tem alternativa viável. Penalizar esse motorista não é ambientalismo; é descaso social disfarçado de política verde.

O problema se agrava quando se percebe que o ônus recai de forma desproporcional sobre as camadas de menor renda. O executivo que mora no Itaim Bibi e trabalha na Faria Lima pode trocar o carro pelo metrô ou por um aplicativo. O operário que mora a 40 quilômetros do emprego, acorda às 4h da manhã e depende de um Gol 2009 para não perder o ponto não tem esse privilégio. Para ele, cada novo imposto, cada aumento de combustível e cada estacionamento rotativo a mais é um corte no orçamento doméstico já apertado. A mobilidade deixa de ser um direito e vira um fardo.

Não se trata de defender o automóvel como único modelo de transporte possível ou de ignorar os desafios urbanos reais. A questão é de proporcionalidade e honestidade. Se o objetivo genuíno é reduzir emissões e melhorar a mobilidade urbana, o caminho passa por investimento sério em transporte coletivo de qualidade, incentivos concretos à eletrificação acessível e planejamento urbano inteligente — não por taxar progressivamente quem não tem outra opção. Enquanto a equação não mudar, milhões de brasileiros continuarão pagando, literalmente, pelo privilégio de chegar ao trabalho.

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Artigo originalmente publicado em www.autoexpress.co.uk
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