Existe uma imagem bem consolidada no imaginário popular: o salmão é saudável, ponto final. A conversa sobre Ômega-3, gorduras boas e benefícios cardiovasculares tomou conta das mesas de nutricionistas e dos cardápios de restaurantes fitness nas últimas três décadas. O que raramente entra nessa conversa, porém, é de onde vem esse peixe — e o que acontece com ele antes de chegar ao seu prato.
O Brasil importa a maior parte do salmão que consome do Chile, segundo maior produtor mundial, atrás apenas da Noruega. E o modelo de produção adotado em larga escala nesses países é a aquicultura intensiva: peixes criados em gaiolas flutuantes, em alta densidade, num ambiente artificial que pouco lembra o oceano aberto onde a espécie evoluiu. Nessas condições, doenças se proliferam com facilidade, o que leva ao uso frequente de antibióticos e pesticidas para manter os estoques vivos e rentáveis.
A dieta também muda radicalmente. Salmões selvagens acumulam Ômega-3 porque se alimentam de krill, algas e outros organismos marinhos ricos nesse nutriente. Os de cativeiro, por outro lado, recebem ração industrializada à base de farinha de peixe e, cada vez mais, ingredientes de origem vegetal — o que altera diretamente o perfil nutricional da carne. Estudos comparativos já mostraram que o teor de Ômega-3 no salmão de criação pode ser significativamente diferente do encontrado no selvagem, e que a proporção entre Ômega-3 e Ômega-6 — crucial para o equilíbrio inflamatório do organismo — tende a ser menos favorável.
Além disso, a coloração característica do salmão — aquele laranja-rosado que associamos ao frescor e à qualidade — não é natural nos peixes de cativeiro. Ela é obtida por meio de pigmentos sintéticos adicionados à ração, como a astaxantina artificial, cuja dosagem é escolhida com base em escalas de cor para agradar ao olho do consumidor. Não necessariamente ao seu organismo.
Isso não significa que o salmão deva ser banido do cardápio. Mas significa que vale a pena questionar a narrativa pronta do 'superalimento'. Conhecer a origem do que se come, preferir versões selvagens quando possível, variar as fontes de proteína e gordura saudável — sardinha, atum, cavala — e não delegar o raciocínio crítico a slogans de marketing são atitudes que fazem mais pela saúde do que qualquer peixe isolado, por mais nobre que seja a sua reputação.
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