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Sophie Cunningham e o esporte como campo de batalha cultural nos EUA

Redação Recifes
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Sophie Cunningham e o esporte como campo de batalha cultural nos EUA

Durante anos, uma parcela do público esportivo norte-americano repetiu o mesmo mantra sempre que um atleta se posicionava sobre questões sociais: "Fica quieto e joga." O esporte, diziam, deveria ser um espaço neutro, livre de ideologia, um refúgio da polarização que tomou conta da vida americana. Agora, esse mesmo grupo celebra Sophie Cunningham como uma heroína — não apenas pelo que ela faz em quadra, mas pelo que ela representa fora dela.

Cunningham, armadora do Phoenix Mercury na WNBA, ganhou projeção nacional muito além dos seus números no basquete. Em um campeonato marcado por tensões em torno de questões de identidade, diversidade e representação, ela foi alçada ao posto de símbolo por setores conservadores que enxergam na liga feminina um palco para disputas culturais. O paradoxo é evidente: aqueles que há pouco mais de uma década clamavam por um esporte "despolitizado" agora não perdem uma oportunidade de transformar atletas em bandeiras ideológicas — desde que essas bandeiras apontem na direção correta.

Esse fenômeno revela uma virada significativa na relação entre esporte e política nos Estados Unidos. A questão nunca foi realmente sobre manter o esporte "puro" — foi sobre controlar qual tipo de mensagem política seria tolerada dentro dos estádios e arenas. Quando atletas negros ergueram o punho fechado ou se ajoelharam durante o hino nacional, a reação foi furiosa. Quando uma atleta branca se torna símbolo das guerras culturais da direita, o entusiasmo é idêntico, só que invertido.

Para Cunningham, a situação é duplamente complexa. Seja qual for a intenção da jogadora, ela se tornou moeda de troca em um debate que vai muito além do basquete. Sua imagem é instrumentalizada por vozes políticas que pouco se interessam pelo esporte feminino em si — e que provavelmente não assistiriam a um jogo da WNBA não fosse pela narrativa que o envolve. O esporte, uma vez mais, serve de palco para disputas que começam e terminam bem longe das quadras.

O que esse episódio deixa claro é que a politização do esporte não é um problema de um lado só. É uma característica estrutural do momento em que vivemos — e nenhuma torcida, corrente ou atleta está imune a ela. A diferença está em quem decide as regras do jogo e quem lucra com elas.

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Artigo originalmente publicado em www.theguardian.com
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